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terça-feira, 25 de julho de 2017

Bancos falidos? Deixa quebrar. Redução pirada de gastos públicos é péssima para os negócios.

1/7/2017, Craig Murray Blog














Eis uma surpreendente verdade. Salários médios reais na Grã-Bretanha são hoje 5% inferiores ao que eram há precisamente uma década.

"Gráfico 2: Pagamento semanal total médio: real e nominal, economia total, ajustada, 2015, em % – Janeiro 2005 a abril 2017 (Gabinete de Estatísticas Nacionais da Grã-Bretanha)"

Não passa um dia em que a mídia-empresa não fale da estagnação dos salários. Só é estagnação, se você só considerar os números de depois da quebradeira dos bancos. Se você toma por referência os números de uma década atrás, não há estagnação: há colapso. 

Vivemos a pior década para salários reais na Grã-Bretanha desde, no mínimo, 1814-24, e eu diria que as coisas ainda são piores hoje que 
naquele momento. Vale também 
anotar que aquela aguda recessão também foi disparada pela redução no gasto público, embora em níveis mais baixos.

Tema constante do Partido Trabalhista na campanha eleitoral, e que ganha força, é que o governo anterior do Partido Trabalhista não gastou demais nem erradamente. O que derrubou a economia foi a crise dos bancos.


Até certo ponto. O governo anterior do Partido Trabalhista gastou, sim, desastrosamente. Mas não gastou em serviços públicos. Brown e Darling gastaram alucinadamente bombeando quantias inacreditáveis de dinheiro público para 'resgatar' os bancos. Isso causou a massiva inflação da dívida pública inicial. A grande ironia é, claro, que os juros da dívida são pagos aos mesmos banqueiros que receberam o dinheiro como se estivessem sendo 'resgatados'.

Está na moda entre os direitistas argumentar que os 'resgates' de bancos de fato nem aconteceram, ou, se aconteceram, não custaram coisa alguma. Essa prática de reescrever a história é cada dia mais frequente na narrativa da mídia-empresa dominante. Mas a Dívida Nacional era de 36% do PIB em 2007 (e estava em queda), e pulou para 60% do PIB em 2009. Aí está o 'resgate' de bancos.

O resgate dos bancos afundados no crash disparou as chamadas 'políticas de austeridade' [são políticas de arrocho, não de austeridade] concebidas para reparar as finanças públicas, mas que congelaram o crescimento econômico. À falta de crescimento somou-se a desregulação neoliberal do mercado de trabalho, especialmente a diminuição violenta do papel dos sindicatos, o que levou ao colapso dos salários.

O governo gosta de dizer que nesse período a distância entre os 10% que ganham mais e os 10% 'de baixo' teria diminuído (ligeiramente). Até parece que é verdade. Mas esse número pouco significa. A distância entre o 1% mais ricos e os 99% menos ricos mais que dobrou, naquela década. O que aconteceu foi que a sociedade andou para trás, na direção de modelo mais vitoriano. 1% são super-ricos, todo o resto da população está ficando cada dia mais pobre, e a diferença entre uns e outros não diminui.

Interessa-me de modo especial que o desastre da renda das pessoas comuns foi ainda maior, mais profundo e persiste por mais tempo do que se viu no período imediatamente depois do desastre financeiro dos anos 1930s.

Fiz oposição ao resgate dos bancos naquele momento, e hoje estou 
convencido de que não eu não estava errado. Os maus bancos deveriam 
ter-se rebentado.

Se o governo pagasse às pessoas e empresas o que tivesse de ser pago pelo esquema das garantias, teria custado 10% a menos, aos cofres públicos, do que o chamado 'resgate' dos bancos fracassados.

A bolha imobiliária teria colapsado, o que tornaria a propriedade ter preços realistas em relação aos salários e evitando que se formasse a sociedade de proprietários e inquilinos em que nos vamos transformando.

Maus banqueiros teriam perdido os empregos e aprendido boa lição, pela via mais difícil e mais eloquente, no que tivesse a ver com práticas bancárias – em vez do contrário, a ponto de os banqueiros crerem, como hoje, que podem fazer qualquer coisa, errar o quanto errem, porque sempre serão 'resgatados'. O 'resgate' foi massivo incentivo à perversidade.

Bancos falidos seriam comprados por outros mais bem administrados e não falidos, ou surgiriam novos bancos. Esse é o modo como as economias avançam.

É possível que a recessão imediata tivesse sido mais profunda. Venda de grandes propriedades em Londres, de Porsches, cocaína e prostituição teria aumentado. Mas depois viria o tipo de recuperação forte e sustentada, com crescimento real, que se viu em todos oscrashes financeiros que a história conheceu, em vez da desgraça e dor paralisantes que se veem hoje no país.

Claro que há outros fatores que afetam a economia, o que torna muito difícil isolar o efeito do resgate dos bancos sobre a Grã-Bretanha. Mas na mesma década, Alemanha, França e Itália tiveram crescimento nos salários reais. 

A perversão desse ataque continuado contra os gastos públicos, é claro, agravou terrivelmente a situação. Mas se se vê o desastre que é a vida para as pessoas comuns depois do 'resgate', e já há tanto tempo, acho difícil acreditar que a vida teria sido pior, se nenhum banco tivesse sido 'resgatado'.

Acho impressionante que essa causa raiz de tantas de nossas desgraças seja jamais mencionada nas 'análises' ditas 'jornalísticas' que se leem hoje.

Os neotrabalhistas neoliberais ("New Labour") não foram responsáveis só por grande parte da desregulação que tornou possível o grandecrash. Políticas como a Iniciativa de Financiamento Público [ing. Public Finance Initiative (equivalem às 'parcerias público-privadas', como se chamam no Brasil)] não passaram de instrumentos para fazer jorrar bilhões de libras/dólares/reais etc. previstos como gasto para finalidades públicas, diretamente nos bolsos dos banqueiros. 'Resgatar' amigos 
banqueiros com o dinheiro de toda a sociedade não exigiu muita reflexão de Darling e Brown. Lord Darling 
tem recebido um dinheirinho que pinga em seus pessoais bolsos vindo dos banqueiros, e praticamente desde sempre. Há um círculo do Inferno reservado especialmente para Brown e Darling [e para Temer e Meirelles et allii].

Não por acaso, jamais vi a questão proposta em lugar algum. Mas, por favor, apareçam todos vocês e proponham ideias. O que cada um aí pensa que estaria acontecendo hoje, se os bancos tivessem quebrado, como é óbvio que quebrariam?

ATUALIZAÇÃO

Em resposta a um comentário, pesquisei o crescimento real dos salários na Islândia nesse período. A Islândia não 'resgatou' banco algum e deixou que os bancos quebrassem. Claro que é economia diferente da economia do Reino Unido, mas mesmo assim a comparação é interessante. De fato, exatamente como postulei acima que poderia acontecer no Reino Unido, depois de queda inicial profunda, os salários na Islândia recuperaram-se muito saudavelmente, o que gerou aumento geral muito forte para todo o período.


Gráfico: tradingeconomics.com


ATENÇÃO: O gráfico acima mede outra coisa, em relação ao que aparece acima, do Reino Unido. O gráfico do Reino Unido mede o nível dos salários em termos constantes em 2015. O crescimento islandês mede a taxa de crescimento em salários reais.

Embora as duas economias não sejam perfeitamente comparáveis, e não bastem para provar minha tese, com certeza são dados que não a desmentem.

Aqui, um postado interessante de um blog que partilha minha avaliação segundo a qual é errado considerar a globalização e a desregulação neoliberal como se fossem uma coisa só, ou parte do mesmo processo. A globalização pode ser boa. A desregulação é sempre ruim.*****

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