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terça-feira, 14 de abril de 2015

Os 45 anos finais do Império Anglo-saxão

Pravda em português 

14.04.2015 
 
Os 45 anos finais do Império Anglo-saxão. 21980.jpeg

Em março desde ano, desencontrei-me, literalmente por uma semana, de William Engdahl, autor do notável "A Century of War" [Um século de guerra], livro e autor sobre os quais falei no meu antigo blog, antes mesmo de o livro ser lançado pela editora "Selado" em versão impressa

Mesmo assim, embora não tenha podido encontra-lo pessoalmente, consegui obter uma entrevista exclusiva com Engdahl para a revista Gazprom, gravada pelo editor-chefe Sergey Pravosudov.

Espero que o ponto de vista de um dos autores já clássicos do moderno jornalismo geopolítico ajude vocês a compreender os sempre repetidos 'saltos' da geopolítica e da geoeconomia, e a extrair conclusões sobre essas repentinas mudanças na ordem mundial que se veem aí, diante de nossos olhos.

Para mim, a entrevista com William Engdahl é interessante, porque se trata de conhecido crítico da Teoria do Pico do Petróleo, que pessoalmente sempre me pareceu muito razoável e influente nos processos globais.

O mais interessante é que, apesar de partir de premissas quase diametralmente opostas, Engdahl chega a conclusões semelhantes, em alguns pontos idênticas, sobre o futuro dos processos globais.

"EUA são um Titanic"

O economista e cientista político Frederick William Engdahl respondeu nossas perguntas.

Gazprom Review (GR) - Mr. Engdahl, em seu livro Um século de Guerra, o senhor oferece análise interessante dos eventos do século 20. Gostei especialmente do que o senhor escreveu sobre a crise de 1973, quando o petróleo subiu muito.

Frederick William Engdahl (FWE) - Em minha opinião, é óbvio que o aumento dos preços do petróleo não é culpa exclusiva dos xeiques do petróleo, mas de EUA e Grã-Bretanha. Mais precisamente, dos bancos anglo-saxões, das empresas de petróleo e do complexo industrial militar. À altura de 1971, as reservas de ouro mal chegavam a um quarto das dívidas oficiais dos EUA. Isso, basicamente, significava que, se todos os proprietários de dólares exigissem o correspondente ouro, Washington não teria como pagar.

Quando anunciou aos proprietários estrangeiros de dólares que o papel que tinham nos cofres não mais seria trocado por ouro, o presidente Nixon 'desligou os aparelhos' que mantinham viva a economia global. O comércio mundial, depois de 1971, converteu-se em mais uma arena de especulação com diferentes moedas.

Os reais autores da estratégia de Nixon estavam em influentes bancos comerciais, na City de Londres.Sir Siegmund Warburg, Edmond de Rothschild, Jocelyn Hambro e outros viram uma oportunidade gigante no movimento de Nixon separar-se do padrão ouro de Bretton Woods, no verão de 1971.

Depois de agosto de 1971, quando Henry Kissinger tornou-se conselheiro de segurança nacional da Casa Branca, a política norte-americana dominante passou a ser controlar, não desenvolver economias, por todo o mundo. Durante os anos 1970s, passou a ser prioridade reduzir a população de países em desenvolvimento, e não, absolutamente, fazer qualquer transferência de tecnologias e estratégicas para o crescimento industrial local.

O Ministério das Finanças dos EUA firmou um acordo secreto com a Agência da Moeda [orig.Currency Agency] da Arábia Saudita, aprovado oficialmente em fevereiro de 1975. Por esse acordo, a massiva quantidade de dinheiro que os sauditas receberiam pela venda de petróleo teria de ser aplicada, toda ou quase toda, para pagar as dívidas do governo dos EUA. Um jovem banqueiro de banco de investimentos de Wall Street, David Mulford, foi mandado viver na Arábia Saudita, e tornou-se o principal "conselheiro de investimentos" no Banco Central da Arábia Saudita, encarregado de direcionar os petrodólares para os bancos 'certos', em Londres e New York, claro.

É preciso considerar com especial atenção o modo como a crise do petróleo afetou a Alemanha Ocidental. A economia alemã desenvolveu-se muito bem, os indicadores de crescimento industrial surpreenderam o mundo. Depois de 1971, quando os EUA pararam de devolver ouro em troca de dólar-papel, muitos países começaram a preferir receber pagamento em marcos alemães. Resultado disso, o marco ficou muito fortalecido contra o dólar; nos EUA passou a ser visto como ameaça. 

Além disso, em 1969 o chanceler era o social-democrata Willy Brandt, que começava a seguir uma política de reaproximação com a URSS, na esfera econômica e na esfera política. Foi Brandt quem, em 1970, assinou o famoso acordo "gás-em-troca-de-gasodutos" [orig. Gas-Pipes]. E também, durante a guerra Israel-Árabes de 1973, Willy Brandt anunciou que a Alemanha Ocidental assumiria posição de neutralidade e proibiu os norte-americanos de usarem suas bases em território alemão para fornecer armas a Israel. Os EUA ignoraram a proibição. Resultado dela, contudo, a Alemanha, como outros países ocidentais sentiram o peso da "arma-petróleo". 

Claro que os EUA nunca perdoariam tal insubordinação, principalmente do país europeu que, desde a 2ª Guerra Mundial estava sob virtual ocupação por soldados norte-americanos. Em 1974, os efeitos da crise do petróleo levaram à falência vários bancos alemães; e ao enfraquecimento do marco alemão. O custo do petróleo importado pela Alemanha aumentou, em 1974, em cerca de inacreditáveis $17 bilhões de marcos alemães. Meio milhão de alemães ficaram desempregados. O choque desse repentino aumento de 400% no preço desse recurso básico de energia teve efeito devastador sobre a indústria, o transporte e a agricultura alemães. 

Em 1974, Willy Brandt foi forçado a renunciar. Foi acusado de não ter sabido prever e enfrentar a crise do petróleo. E como se não bastasse, descobriu-se, 'repentinamente', que Günter Guilliom, conselheiro do Brandt, era agente da inteligência da Alemanha Oriental.

A vasta maioria das economias menos desenvolvidas do mundo, que não têm recursos significativos de petróleo, foram repentinamente forçadas a encarar um aumento inesperado e impossível para elas, de 400%, no custo das importações de energia, para nem falar no custo de produtos químicos e fertilizantes derivados do petróleo. A Índia, em 1973, tinha saldo positivo na balança comercial e vivia como saudável economia em desenvolvimento. Em 1974, a Índia tinha, como reservas totais em moeda estrangeira, $629 milhões, com as quais teria de pagar a conta anual de petróleo importado, de $1,2 bilhão (mais que o dobro da moeda estrangeira disponível). Sudão, Paquistão, Filipinas, Tailândia e muitos outros países na África e na América Latina enfrentaram, em 1974, déficits sempre crescentes na balança de pagamentos.[1] No total, segundo o FMI, em 1974 os países em desenvolvimento tinham um déficit total na balança de pagamentos de $35 bilhões de dólares, quantia gigantesca naqueles dias. Não surpreendentemente, esse déficit era quatro vezes maior que em 1973, i.e., era proporcional ao aumento nos preços do petróleo.

Ao mesmo tempo em que o choque do petróleo teve impacto devastador no crescimento industrial mundial, resultava em lucros gigantes para alguns círculos bem conhecidos: os maiores bancos em New York e Londres e para as "Sete Irmãs" - empresas de petróleo dos EUA e Grã-Bretanha. A maior parte dos lucros em dólar dos países da OPEP foi depositada em grandes bancos em Londres e New York, que operavam com dólares, como em todo o comércio internacional de petróleo.

Diferente da Alemanha, a Grã-Bretanha lucrou com a crise do petróleo. O aumento dos preços do petróleo tornou viável o desenvolvimento do campo de petróleo no Mar do Norte, e as empresas anglo-saxônicas conseguiram fazer bom dinheiro.

GR - Por que, em meados dos anos 1980s, os preços do petróleo caíram vertiginosamente?

FWE - Durante o governo Reagan, a prosperidade econômica dos EUA alicerçada em investimentos nas mais avançadas tecnologias industriais, acabou. O aço foi declarado o "cinturão de ferrugem" da indústria, usinas fabricantes de aço foram abandonadas. Onde "havia dinheiro", construíram-seshopping centers, novos cassinos e hotéis de luxo.

Para financiar essa orgia durante essa bolha de especulação, praticamente durante todo o mandato de Reagan o dinheiro veio de fora. Ninguém jamais pensa sobre o fato de que, ao longo desses cinco curtos anos, pela primeira vez desde 1914 os EUA passaram, da posição de maior credor do planeta, para a posição de estado devedor. O crédito era "barato" e crescia exponencialmente. Famílias alcançaram níveis recorde de endividamento, para comprar casas, carros, carros de luxo. O governo endividou-se para financiar a diminuição da arrecadação e o aumento nos gastos militares do governo Reagan. Em 1983, o déficit anual em orçamento alcançou o nível sem precedentes de $200 bilhões. Com um déficit recorde, cresceu a dívida nacional, enquanto os corretores de ações de Wall Street e seus clientes recebiam dividendos recordes. Os juros a pagar sobre o total da dívida do governo dos EUA, em seis anos, subiram de $52 bilhões em 1980, quando Reagan chegou à presidência, para mais de $142 bilhões em 1986 (1/5 de tudo que o estado arrecadava). Mas, apesar desses sinais tão preocupantes, o dinheiro continuava a sair da Alemanha, Grã-Bretanha, Holanda, Japão, todos ansiosos para pôr a mão nos lucros de especulação no mercado imobiliário e no mercado financeiro. Em 1980, a soma da dívida pública e privada dos EUA chegou a $3,9 trilhões de dólares. Ao final da década, chegou a $10 trilhões.

Para qualquer pessoa com senso de história ou boa memória, tudo isso é bem familiar. Já acontecera nos "loucos anos 20s" até 1929, quando o crash do mercado fez a roleta parar de repente. Quando, em 1985, nuvens de tempestade começaram a acumular-se no horizonte da economia dos EUA, ameaçando as ambições presidenciais do então vice-presidente George H. W. Bush, o petróleo, mais uma vez, lá estava, para fazer o papel de 'salvador da pátria'. Apenas que, dessa vez, de modo muito diferente do que se vira nos choques do petróleo anglo-norte-americanos dos anos 1970s. 

Obviamente, Washington raciocinou assim: "Se podemos fazer subir o preço, porque não poderíamos fazê-lo despencar, se é o que mais interessa aos nossos objetivos?"

A Arábia Saudita foi persuadida a entrar em modo de "choque de petróleo reverso" e a afogar, com seu petróleo, o deprimido mercado mundial. Na primavera de 1986, o preço OPEP do petróleo caiu como pedra, até abaixo de $10 por barril, a partir de um preço médio de quase $26 apenas uns poucos meses antes. Em março de 1986, quando queda ainda maior nos preços do petróleo ameaçava já desestabilizar os interesses vitais, não só de um concorrentes independentes pequenos, mas das maiores empresas britânicas e norte-americanas de petróleo, George Bush Pai fez uma viagem secreta a Riad onde, como o comprovam inúmeras provas, disse ao rei Fahd que fizesse parar a queda do preço do petróleo. O Ministro do Petróleo de Arábia Saudita, Zaki Yamani, serviu com o bode expiatório conveniente para políticas inventadas em Washington, e os preços do petróleo estabilizaram-se num nível relativamente baixo, de 14-16 dólares por barril. 

O Texas e outros estados produtores nos EUA entraram em depressão, mas a especulação imobiliária em outros estados subiu à estratosfera, e o mercado de ações entrou novamente em ascensão, para subir a alturas estonteantes.

A queda nos preços do petróleo em 1986 deu origem a uma bolha especulativa, comparável à situação em 1927-1929 nos EUA. As taxas de juros caíram ainda mais, com o dinheiro sempre voando rumo à Bolsa de Valores em busca de grandes lucros. Nasceu então e logo virou moda em Wall Street uma nova perversão financeira - a compra de dívidas.

Em 1979, quando em plena segunda crise do petróleo Paul Volcker começou seu choque monetário, o governo contou 24 milhões de norte-americanos vivendo abaixo da linha de pobreza, definida essa linha em 6 mil dólares anuais. Em 1988, o número já crescera mais de 30% , para 32 milhões. 

Como nunca antes na história dos EUA a política tributária dos Reagan-Bush concentrara a riqueza do país em mãos de uma pequena elite. A partir de 1980, conforme estudo feito pela Comissão de Orçamento da Câmara de Deputados do Congresso dos EUA, a renda real dos 20% mais ricos dos EUA crescera 32%.

Apelo direto de Washington ao governo japonês do primeiro-ministro Nakasone, dizia que presidente do Partido Democrata, fosse quem fosse, agrediria o comércio nipo-norte-americanas. Funcionou. Nakasone pressionou o Banco do Japão e o Ministério da Finança, para 'amaciá-los', torná-los mais flexíveis. As taxas de juro japonesas desde outubro de 1987 continuaram caindo, o que fazia com que ações e títulos dos EUA, bem como a propriedade imobiliária, aparecessem como investimentos relativamente "baratos". Bilhões de dólares viajaram de Tóquio para os EUA. Durante o ano de 1988, o dólar permaneceu forte e Bush deu jeito de vencer as eleições contra o candidato do Partido Democrata, Dukakis. Para assegurar o apoio do Japão, Bush deu as mais altos funcionários japoneses garantias privadas de que sua presidência faria melhorar as relações Japão-EUA.

GR - Qual o objetivo dos dois ataques dos EUA contra o Iraque?

FWE - Em 1990, o Iraque tinha enorme dívida externa e o governo dos EUA fizeram saber a Saddam Hussein que os EUA não se incomodaria se ele assaltasse o Kuwait. Mas, quando o Iraque invadiu o Kuwait, os EUA declararam guerra contra o Iraque. Importante a considerar, porque é traço característico: essa guerra foi financiada pelos aliados: Alemanha, Japão, Arábia Saudita e Kuwait, que pagaram $54,5 bilhões aos norte-americanos. Como resultado, os EUA completaram a operação "Tempestade no Deserto" com lucro líquido de $19 bilhões de dólares. Foi guerra necessária para que os EUA fortalecessem sua posição no Oriente Médio, e para ameaçar os aliados dos EUA na Europa e na Ásia. As causas da guerra de 2003 foram semelhantes.

GR - Por que os EUA permitiram declínio tão acentuado nos preços do petróleo no final do ano passado, se levou a uma drástica redução do investimento na produção do petróleo de xisto? Não poderiam, em vez disso, usar as conexões que têm com os terroristas, para organizar ataques aos campos de petróleo no Iraque, Nigéria, Angola, Argélia e outros países?

FWE - Sobre a questão do petróleo: a estratégia do Departamento de Estado dos EUA e da CIA é que a Arábia Saudita derrube os preços do petróleo, em primeiro lugar para pressionar Rússia, Irá e Venezuela. Não acho que tenham considerado qualquer efeito sobre o petróleo de xisto nos EUA, pelo menos inicialmente. Nunca subestime a estupidez das figuras chaves em Washington, tampouco a superestime. Acho que, nesse caso, o mais provável é que tenha avaliado que ExxonMobil, Chevron e British Petroleum conseguiriam sobreviver a seis meses de preços reduzidos. A indústria do petróleo de xisto, nos EUA são empresas médias e pequenas. O Big Oil nos EUA foi empurrado para o fundo do palco. Ano passado, a Shell definiu o investimento em petróleo de xisto como o maior erro da empresa, e saiu, antes de os preços caírem. 

É possível que logo recomecem os ataques terroristas à infraestrutura e à capacidade de produção do petróleo. A estratégia de Washington é quebrar a Rússia. Essa é a missão da facção do complexo militar industrial - Lockheed-Martin, Boeing, Raytheon, General Dynamics, etc. e bancos de Wall Street que querem destruir a Rússia por motivos geopolíticos. 

Em termos geopolíticos, com a volta de Vladimir Putin à presidência, a Rússia passou a recusar-se a ajoelhar e rezar como vassalo do 'ocidente'. A Rússia recusa-se a envolver-se em qualquer questão que afete a segurança do país, como mísseis de defesa e ataque nuclear preventivo aos EUA. 

A cooperação econômica, política e militar entre a Rússia e os BRICS e entre a Rússia e a China representa ameaça à hegemonia da elite política dos EUA: uma Eurásia única economicamente e financeiramente, e militarmente independente (principalmente graças às capacidades militares da Rússia).

Há 20 anos, Washington eliminou todas as defesas de qualquer União Europeia independente que houvesse, com a assinatura do Tratado de Maastricht. Agora, a União Europeia está voltando a falar de constituir exército seu, independente da OTAN. Washington deu risada. Além do mais, a Rússia está cada vez mais atraente para a indústria alemã. 

Segundo o diretor da empresa privada de inteligência norte-americana "Stratfor", George Friedman, nos últimos cem anos a estratégia dos EUA foi impedir qualquer aproximação entre Rússia e Alemanha. Essa aproximação, agora, em minha opinião, é a razão pela qual Washington convocou a Arábia Saudita para que encenasse o colapso nos preços do petróleo. Nada tem a ver com empresas de petróleo à beira da falência. Só tem a ver com as elites arruinadas do Império Norte-americano: a Síria não trabalha para elas, o Egito não funciona a favor delas, a Turquia não funciona a favor delas, os países BRICS estão criando um novo banco de infraestrutura fora de qualquer controle pelo FMI e o Banco Mundial.

O que há é um bando de oligarcas norte-americanos tentando desesperadamente remendar os buracos no casco do "Titanic" deles. Mas nada poderá ajudá-los. O povo já ficou esperto demais. *****

9/4/2015, William Engdahl, in Fort Russ, entrevista a Sergey Pravosudov, da revista Gazprom (trad. ao ing. Kristina Rus)http://fortruss.blogspot.ch/2015/04/the-final-45-years-of-anglo-saxon.html

Eduardo Galeano não morreu!

Do blogdomiro

Por Altamiro Borges

Os amantes da liberdade e da humanidade estão de luto. Faleceu na manhã desta segunda-feira (13) o escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano. A triste notícia foi confirmada por sua editora ao jornal espanhol 'El País'. Aos 74 anos de idade, ele estava internado em um hospital de Montevidéu desde sexta-feira e não resistiu à complicações decorrentes de um câncer no pulmão. 

Tive o prazer de conhecê-lo durante o plebiscito revogatório na Venezuela, em agosto de 2004, que confirmou o mandato do presidente Hugo Chávez. Foi um papo longo, alegre e apaixonante, de um ser humano genial e comprometido com a emancipação dos povos da América Latina e do mundo. Na verdade, Eduardo Galeano não morreu. Suas ideias e suas belas obras estão mais vivas do que nunca!

Faço o link abaixo de alguns artigos e vídeos reproduzidos neste blog nos últimos anos. Eles provam que Eduardo Galeano é eterno:









A democracia ameaçada? Por Hugo Brockes

Democracia ameaçada?

Neste momento, o Brasil passa por grave crise política e econômica. Presencia-se sérias denúncias de corrupção na Petrobras; pós-eleição, o governo se viu obrigado a implementar o ajuste fiscal que, com maior ou menor grau, penaliza a população. Em decorrência de erros acumulados nos últimos anos a inflação começa a subir com a economia dando sinais de recessão, o que demonstra a dimensão do problema. Tudo isso tem levado parte considerável dos brasileiros a manifestar-se contra o governo da presidente Dilma Rousseff.

Frente a esse quadro de crises e insatisfações, os anistiados políticos se posicionam e externam suas preocupações, quando setores minoritários da sociedade brasileira - de extrema direita -, aproveitando os movimentos populares, legítimos e democráticos, exortam as Forças Armadas a intervirem e darem um fim no que eles consideram como sendo a “construção, no Brasil, de um regime comunista”. É bom lembrar que essas forças agiram assim na década de 1960, o que culminou no golpe militar de 31 de março de 64, que completou 51 anos.

As dificuldades que o País vive hoje não justificam que atitudes aventureiras aconteçam e ameacem as nossas instituições democráticas. É bom lembrarmos que a ditadura instalada em 1964 promoveu intervenção criminosa em nosso Estado e depôs o governo Mauro Borges, violou os direitos humanos de forma indescritível, com prisões, sequestros, torturas, assassinatos e desaparecimentos de opositores do regime, como são os casos, em Goiás, dos estudantes Marcos Antônio Dias Batista, Ismael Silva de Jesus e do deputado estadual José Porfírio de Souza.

Em nossa recente história, avanços democráticos foram conseguidos com muita luta. A anistia política de 1979 só foi possível com a criação em todo o País, a partir de 1975, dos Comitês pela Anistia Ampla, Geral e Irrestrita; as Diretas-Já, em 1984, e as mobilizações populares para eleger Tancredo Neves como presidente do Brasil foram importantes para o fim do regime militar e a consolidação de nossas instituições democráticas, que mobilizaram milhões de brasileiros.

Numa sociedade democrática, há de se levar em consideração que as crises se resolvem dentro da lei e no respeito às instituições. A democracia é um processo contínuo de construção, por isso, temos a obrigação de externar a nossa posição: não concordamos e não aceitamos nenhum tipo de ditadura, seja de direita ou esquerda, civil ou militar. As Forças Armadas, responsáveis pela garantia dos poderes constitucionais, não têm se manifestado ante ao chamamento irresponsável de grupos minoritários dentro das manifestações. Tudo indica que o sentimento legalista prevalece entre os militares, o que torna inócuo tais chamamentos.

Também há de se considerar que o povo tem plena liberdade de se manifestar pacificamente, mas sem retrocesso no que conquistamos e construímos com muito sacrifício: a democracia, que pressupõe a preservação e o aperfeiçoamento do Estado Democrático de Direito.

As manifestações populares, por sua natureza, devem significar avanço no processo civilizatório para que todos sejam beneficiados com uma educação melhor, com saúde de ótima qualidade e para todos, com a diminuição das desigualdades sociais, com o respeito aos que pensam de forma diferente e, acima de tudo, que se possa construir, a cada dia, uma sociedade generosa, fraterna, de plena liberdade, que cuide das pessoas respeitando os direitos humanos. Democracia sempre.

 

Hugo Brockes é publicitário, escritor e diretor da Associação dos Anistiados Políticos de Goiás


* publicado em O Popular

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Especialista explica como a mídia manipula você

  1. Portal Metrópole



    Escritor do livro-bomba que em breve será lançado no Brasil falando sobre as sujeiras da mídia brasileira e o oraculo chamado Rede Globo, conta em artigo exclusivo como a mídia brasileira manipula a população

    Por Redação

    O especialista em comunicação e doutor em ciências politicas, Marcos de Barros, escreveu o artigo a seguir para o Portal, baseado em seu estudo acadêmico lançado na última semana em uma universidade nos Estados Unidos.

    Ele conta sua experiência e algumas de suas observações durante seu estudo, que em breve deve ser lançado no país como livro bomba, contando as sujeiras da mídia brasileira e o oraculo chamado Rede Globo.

    Leia a seguir:

    Os brasileiros no exterior que acompanham o noticiário brasileiro pela internet têm a impressão de que o país nunca esteve tão mal. 

    Explodem os casos de corrupção, a crise ronda a economia, a inflação está de volta, e o país vive imerso no caos moral. Isso é o que querem nos fazer crer as redações jornalísticas do eixo Rio – São Paulo. 

    Com seus gatekeepers escolhidos a dedo, Folha de S. Paulo, Estadão, Veja e O Globo investem pesadamente no caos com duas intenções: inviabilizar o governo da presidenta Dilma Rousseff e destruir a imagem pública do ex-presidente Lula da Silva. Até aí nada novo.

    Tanto Lula quanto Dilma sabem que a mídia não lhes dará trégua, embora não tenham – nem terão – a coragem de uma Cristina Kirchner de levar a cabo uma nova legislação que democratize os meios de comunicação e redistribua as verbas para o setor. 

    Pelo contrário, a Polícia Federal segue perseguindo as rádios comunitárias e os conglomerados de mídia Globo/Veja celebram os recordes de cotas de publicidade governamentais. O PT sofre da síndrome de Estocolmo (aquela na qual o sequestrado se apaixona pelo sequestrador) e o exemplo mais emblemático disso é a posição de Marta Suplicy como colunista de um jornal cuja marca tem sido o linchamento e a inviabilização política das duas administrações petistas em São Paulo.

    O que chama a atenção na nova onda conservadora é o time de intelectuais e artistas com uma retórica que amedronta. 

    Que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso use a gramática sociológica para confundir os menos atentos já era de se esperar, como é o caso das análises de Demétrio Magnoli, especialista sênior da imprensa em todas as áreas do conhecimento. 

    Nunca alguém assumiu com tanta maestria e com tanta desenvoltura papel tão medíocre quanto Magnoli: especialista em políticas públicas, cotas raciais, sindicalismo, movimentos sociais, comunicação, direitos humanos, política internacional… 

    Demétrio Magnoli é o porta-voz maior do que a direita brasileira tem de pior, ainda que seus artigos não resistam a uma análise crítica.

    Agora, a nova cruzada moral recebe, além dos já conhecidos defensores dos “valores civilizatórios”, nomes como Ferreira Gullar e João Ubaldo Ribeiro. 

    A raiva com que escrevem poderia ser canalizada para causas bem mais nobres se ambos não se deixassem cativar pelo canto da sereia. Eles assumiram a construção midiática do escândalo, e do que chamam de degenerescência moral, com o fato. 

    E, porque estão convencidos de que o país está em perigo, de que o ex-presidente Lula é a encarnação do mal, e de que o PT deve ser extinguido para que o país sobreviva, reproduzem a retórica dos conglomerados de mídia com uma ingenuidade inconcebível para quem tanto nos inspirou com sua imaginação literária.


    Ferreira Gullar e João Ubaldo Ribeiro fazem parte agora daquela intelligentsia nacional que dá legitimidade científica a uma insidiosa prática jornalística que tem na Veja sua maior expressão.

     Para além das divergências ideológicas com o projeto político do PT – as quais eu também tenho -, o discurso político que emana dos colunistas dos jornalões paulistanos/cariocas impressiona pela brutalidade. 

    Os mais sofisticados sugerem que a exemplo de Getúlio Vargas, o ex-presidente Lula cometa suicídio; os menos cínicos celebraram o “câncer” como a única forma de imobilizá-lo. 

    Os leitores de tais jornais, claro, celebram seus argumentos com comentários irreproduzíveis aqui.
    Quais os limites da retórica de ódio contra o ex-presidente metalúrgico? 

    Seria o ódio contra o seu papel político, a sua condição nordestina, o lugar que ocupa no imaginário das elites? 

    Como figuras públicas tão preparadas para a leitura social do mundo se juntam ao coro de um discurso tão cruel e tão covarde já fartamente reproduzido pelos colunistas de sempre? 

    Se a morte biológica do inimigo político já é celebrada abertamente – e a morte simbólica ritualizada cotidianamente nos discursos desumanizadores – estaríamos inaugurando uma nova etapa no jornalismo lombrosiano?


    Para além da nossa condenação aos crimes cometidos por dirigentes dos partidos políticos na era Lula, os textos de Demétrio Magnoli , Marco Antonio Villa, Ricardo Noblat , Merval Pereira, Dora Kramer, Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes, Eliane Catanhede, além dos que agora se somam a eles, são fontes preciosas para as futuras gerações de jornalistas e estudiosos da comunicação entenderem o que Perseu Abramo chamou apropriadamente de “padrões de manipulação” na mídia brasileira. 

    Seus textos serão utilizados nas disciplinas de ontologia jornalística não apenas com o exemplos concretos da falência ética do jornalismo tal qual entendíamos até aqui, mas também como sintoma dos novos desafios para uma profissão cada vez mais dominada por uma economia da moralidade que confere legitimidade a práticas corporativas inquisitoriais vendidas como de interesse público.

    Somos todos reféns da meia dúzia de jornais que definem o que é notícia, as práticas de corrupção que merecem ser condenadas, e, incrivelmente, quais e como devem ser julgadas pela mais alta corte de Justiça do país. 

    Na última sessão do julgamento da ação penal 470, por exemplo, um furioso ministro-relator exigia a distribuição antecipada do voto do ministro-revisor para agilizar o trabalho da imprensa (!). 

    O STF se transformou na nova arena midiática onde o enredo jornalístico do espetáculo da punição exemplar vai sendo sancionado.


    Depois de cinco anos morando fora do país, estou menos convencido por que diabos tenho um diploma de jornalismo em minhas mãos. 

    Por outro lado, estou mais convencido de que estou melhor informado sobre o Brasil assistindo à imprensa internacional. 

    Foi pelas agências de notícias internacionais que informei aos meus amigos no Brasil de que a política externa do ex-presidente metalúrgico se transformou em tema padrão na cobertura jornalística por aqui. 

    Informei-lhes que o protagonismo político do Brasil na mediação de um acordo nuclear entre Irã e Turquia recebeu atenção muito mais generosa da mídia estadunidense, ainda que boicotado na mídia nacional. 

    Informei-lhes que acompanhei daqui o presidente analfabeto receber o título de doutor honoris causa em instituições européias, e avisei-lhes que por causa da política soberana do governo do presidente metalúrgico, ser brasileiro no exterior passou a ter uma outra conotação. 

    O Brasil finalmente recebeu um status de respeitabilidade e o presidente nordestino projetou para o mundo nossa estratégia de uma America Latina soberana.


    Meus amigos no Brasil são privados do direito à informação e continuarão a ser porque nem o governo federal nem o Congresso Nacional estão dispostos a pagar o preço por uma “reforma” em área tão estratégica e tão fundamental para o exercício da cidadania. 

    Com 70% de aprovação popular, e com os movimentos sociais nas ruas, Lula da Silva não teve coragem de enfrentar o monstro e agora paga caro por sua covardia.

    Terá a Dilma coragem com aprovação semelhante, ou nossa meia dúzia de Murdochs seguirão intocáveis sob o manto da liberdade de e(i)mprensa?


    O “The Washington Post”, um dos jornais norte-americanos mais respeitados e lidos em todo o mundo, relatou o poder de influencia das novelas na vida dos brasileiros, em seu artigo “Brazil’s Novelas May Affect Viewers’Lifes” (Novelas do Brasil podem afetar as vidas dos telespectadores) . 

    Um dos trechos do artigo diz : “No Brazil, um país que, na média, assiste mais à televisão que qualquer outro país, exceto o Reino Unido, novelas tem um efeito mais duradouro ao influenciar escolhas no estilo de vida, dizem os pesquisadores. 

    As novelas se tornaram uma parte muito importante na sociedade brasileira”.

    A população é facilmente influenciada pela mídia principalmente quando está relacionada a novelas. Nestas, heróis nacionais são criados – ficcionais ou não. 

    Acaba uma novela e inicia outra e os modelos de comportamentos, beleza, moda e outros vão se alterando. 

    Mudam os personagens, a trama e os assuntos abordados e a sociedade vai respondendo a este estímulo produzido. 

    Os padrões difundidos são copiados e seguidos, porém, as pessoas não conseguem adaptá-los a uma vida real, o que gera ansiedade, angústia e frustração. 

    Assistir televisão, navegar na Internet, falar ao celular são coisas do cotidiano da maioria da população mundial. 

    Somos, todos os dias, bombardeados por diversas mídias que, em comum, têm o objetivo de nos vender alguma coisa: uma ideia, um produto, um sonho, etc. 

    E essa tecnologia influencia o tempo todo a sociedade e em consequência, a educação, tanto informal quanto formal. 

    Podemos afirmar que a vida e a interação humana são mediadas e controladas pelos meios de comunicação. 

    E é neste ambiente de interação com o mundo e significação que desde pequena a criança é colocada à frente da televisão e esta então se apresenta como parte integrante da família por ser uma boa “babá eletrônica”. 

    Como negar a influência da TV, presente na quase totalidade dos domicílios brasileiros, sobre as formações das identidades sociais ?


    Quando ouvimos falar que a mídia representa "o Quarto Poder" em uma nação, é preciso avaliar como isso é verdade e o quanto estamos sujeitos a ela e a todas as suas variáveis. 

    A mídia influencia as pessoas no modo de agir, de pensar e até no modo de se vestir. 

    Ela cria as demandas, orienta os costumes e hábitos da sociedade, além de definir estilos, bordões e discussões sociais.

     A mídia dita as regras, as tendências, os padrões de beleza, os ídolos a serem adorados e seguidos, impondo padrões de beleza cada vez mais inatingíveis.

     E impulsiona homens e mulheres em busca daquele corpinho que só o photoshop sabe produzir.


    A produção da indústria cultural é direcionada para o retorno de lucros tendo como base padrões de imagem cultural preestabelecida e capazes de conquistar o interesse das massas sem trabalhar o caráter crítico do espectador.

     Os adolescentes são bombardeados com produções e marcas internacionais e as crianças estão à mercê dos desenhos infantis.

     Dessa forma, seria impossível a escola, ou os pais das crianças ignorarem os robôs que falam, as naves espaciais que a todos fascinam, a capacidade de voar e de se transformar, de transformas coisas, a magia, o poder e o terror trazido pelos monstros e vampiros; as lutas do bem contra o mal nos desenhos animados, a violência mostrada nos noticiários. 

    Alguns dos programas de TV apresentam constantemente valores questionáveis. 

    Essas mensagens irão determinar como nossos filhos serão? Irão determinar sua honestidade, solidariedade, respeito e outros valores? 

    Segundo Marilena Chauí : “A produção ideológica da ilusão social tem como finalidade fazer com que todas as classes sociais aceitem as condições em que vivem, julgando-as naturais, normais, corretas, justas, sem pretender transformá-las ou conhecê-las realmente, sem levar em conta que há uma contradição profunda entre as condições reais em que vivemos e as ideias”.

    Contudo, além de não podermos subestimar o poder da influência da mídia na vida das pessoas, também não podemos ignorar a importância desta caso seja utilizada de forma mais ética e consciente. 

    Quero dizer que o poder que os veículos de comunicação têm para mobilizar as pessoas é muito grande e pode ser usado para o bem ou para o mal. 

    Campanhas de doação de sangue, de vacinação, de incentivo à reciclagem, para economizar água, pela paz, para ajudar pessoas, e muitas outras, quando divulgadas e incentivadas pela mídia ganham proporções enormes e trazem resultados muito além do esperado.

    Os meios de comunicação em massa devem contribuir para a valorização da diversidade cultural, a promoção dos direitos humanos, no combate a todo tipo de violência, no acesso à informação, entre outros.

     Esta deveria ser sua função primordial.

BRASIL: DA CRISE REAL AO PÂNICO MIDIÁTICO

Blog Gramática do Mundo


Prof. Dr. Romualdo Pessoa
IESA - UFG


BRASIL: DA CRISE REAL AO PÂNICO MIDIÁTICO

CRÔNICAS DE UM MUNDO EM TRANSE - (Continuação)

No artigo anterior que postei aqui no Blog, procurei analisar a conjuntura internacional nos últimos anos e as transformações que aconteceram em várias partes do mundo. Penso que é impossível compreender a crise brasileira fora do contexto internacional. As mudanças que aconteceram aqui e na América Latina estão diretamente relacionadas às mudanças na geopolítica mundial desde o 11 de setembro de 2001, com o ataque às torres gêmeas do World Trade Center.
Mais uma vez recorro à série de artigos que escrevi em 2012, denominada “Crônicas de um Mundo em Transe”. Os links encontram-se na postagem citada.[1] Assim, posso aqui fazer referências pontuais a elementos chaves da política desenvolvida pelos Estados Unidos, e seguidas por dezenas de países aliados, no auge da comoção pelo atentado que matou mais de três mil pessoas, na ação mais ousada em solo estadunidense desde a Segunda Guerra Mundial, com os ataques de aviões kamikazes japoneses à base de Pearl Harbor.
As retaliações que vieram a seguir com uma estupenda movimentação de tropas e a invasão de dois países, o Afeganistão e o Iraque, completamente destruídos e com seus governos destituídos, trouxe também um forte efeito colateral. O enorme gasto militar para dar sustentação a deslocamentos de soldados e armas, e o desvio das atenções em relações às políticas da América Latina, foram cruciais para gerar um forte abalo econômico e geopolítico nos interesses estadunidenses. Alie-se a isso forte impacto financeiro causado pela destruição de um símbolo econômico do poder imperial daquele país, e a quase falência da indústria de securitização, uma vez que nas torres encontravam-se escritórios de representação financeira de empresas de vários países, bancos e até mesmo matrizes das próprias grandes seguradoras.
O impacto foi grandioso, pouco medido, mas difícil de ser contestado. Os dois fatores somados, as consequências econômicas geradas pelos atentados e as ações de guerras no Afeganistão e no Iraque, abalaram a maior economia do mundo. Por extensão afetaram boa parte dos países, notadamente os de maiores influências nos mercados internacionais.
Os anos subsequentes foram de profunda insegurança, medo e de endurecimento na vigilância dos cidadãos estadunidenses e, principalmente, de outras partes do mundo. O ambiente gerado por essas medidas afastou a população de centros e áreas importantes, o temor de novos atentados trouxe intranquilidade e fez com que houvesse uma significativa redução do consumo. Isso levou a medidas de incentivos por parte do governo Bush, com redução de taxas de juros, a fim de fazer com que a economia voltasse a funcionar dentro dos padrões da normalidade existente antes de 2001.[2]
Por outro lado, já que as atenções voltavam-se para o Oriente Médio e a Ásia Central, a América Latina deixou de ser uma importante preocupação na geopolítica estadunidense naquele momento. Com isso possibilitou que coalizões de esquerda conseguissem derrotar governos neoliberais, alinhados com os EUA, e seguissem o caminho que a Venezuela trilhara ainda no final do século XX, com a eleição de Hugo Chavez. O Século XXI iniciava-se com uma profunda reviravolta no espectro político internacional, e afetaria os anos seguintes, culminando com a crise econômica que atingiu mundialmente o sistema capitalista e que estourou no ano de 2008.
Mas deixou consequências na Ordem Mundial que viria a tornar o mundo mais inseguro e com uma quantidade maior de conflitos espalhados por praticamente todos os continentes. A América, naturalmente não foi exceção, pelo ambiente tenso gerado pelas alterações de poder, levando muitos governos a adotarem políticas desenvolvimentistas, em contraposição ao forte neoliberalismo que vigorara nos anos 1990. E possibilitou a derrota de um projeto de criação de uma área de livre comércio que reforçaria a influência dos Estados Unidos, a ALCA. Não somente isso, como também uma inversão com o fortalecimento do MERCOSUL, o surgimento da ALBA (Aliança Bolivariana para as Américas) e, principalmente, da UNASUL.
Nenhum impacto foi maior, contudo, dentro do contexto da geopolítica mundial, e não somente regional, do que o surgimento do BRICS, bloco econômico, e geopolítico, que passou a aglutinar o Brasil, a Rússia, a Índia, a China, e, posteriormente, a África do Sul.
Enquanto os EUA se enrolavam cada vez mais em um novelo bélico de difícil saída e fartos gastos econômicos, a geopolítica mundial tomava uma nova direção com o surgimento de novos protagonistas, que cresciam e buscavam estabelecer relações cada vez mais sólidas, tanto política quanto econômica.
Nem mesmo a crise econômica foi capaz de frear o ímpeto desse novo bloco. As políticas de proteção social e de distribuição de rendas, em que o Brasil foi o principal país a formular ações fundamentais que as consolidaram, garantiram um forte aquecimento na economia e deram tranquilidade para passar a turbulência daquele ano. Ao contrário do que acontecia no resto do mundo e, em especial nos EUA. Foi essa a razão do então presidente Luis Inácio Lula da Silva ter utilizado a palavra “marolinha”, para se referir à crise, advogando a certeza de que ela não afetaria o Brasil.
O que fez a diferença para que a crise não afetasse o Brasil? Seguramente o otimismo injetado na sociedade com uma fase de confiança jamais vista na sociedade brasileira. Isso aliado ao forte aquecimento de uma economia que vicejava internamente, impulsionada por programas sociais de transferências de rendas com maior destaque para o Bolsa Família. Aí, com certeza, encontra-se a razão do acirramento do ódio da classe dominante e dos setores conservadores. Não somente porque reforçava o poder dos setores de esquerda, liderados pelo Partido dos Trabalhadores, mas também porque esse programa quebrava a velha instrumentalização da pobreza, com as chamadas políticas dos grotões, reminiscência do período pós-colonial e da estruturação da política tradicional que tornava em favores o que deveria ser obrigatoriamente políticas públicas.
Com isso, criava-se a dependência dos mais pobres aos “coronéis” que dominava o poder político regional, bem como a subserviência com que essas populações tratavam os mais ricos. Hábitos enraizados que se mantêm até os dias atuais, com os tratamentos de “doutor” a médicos, advogados, engenheiros, sem que os mesmos tivessem, de fato, essa titularidade. Doutores eram aqueles que se situavam no topo da pirâmide, a quem era devido uma subimissão secular, e que por todo esse tempo representou um forte componente para o preconceito, despertado na última campanha eleitoral e potencializado pelas medidas de inclusão social. O resgate da cidadania das empregadas domésticas inclui-se nesse rol, mas também uma razão a mais da insatisfação da classe média alta e burguesia brasileira.
Pelo interior do Brasil, nas pequenas e médias cidades, essas mudanças eram visíveis. Os investimentos em obras públicas, através dos Programas de Aceleração de Crescimento (PAC), Luz para todos, Minha casa minha vida, e da distribuição de centenas de unidades de ensino tecnológico, aliado a fortes investimentos em educação superior, com ampliação de estruturas, aumento do número de cursos e novas universidades que surgiram em locais distantes dos grandes centros urbanos, foram fatores que deram forte impulso ao desenvolvimento interno brasileiro.
A abertura de inúmeras linhas de créditos nos bancos públicos, BNDES, Banco do Brasil e Caixa, com taxas bem abaixo das cobradas no mercado, constituíram-se em mecanismos eficazes de financiamento para que a população pudesse incrementar a economia via consumos de produtos tecnológicos e de utensílios domésticos. Ao mesmo tempo, esses setores tiveram suas cargas tributárias diminuídas, com a redução do imposto sobre produtos industrializados. O mesmo foi feito em relação à indústria automobilística (neste caso com o IPI chegando a zero), um dos setores de maior geração de empregos em toda a sua cadeia produtiva. Ao lado da indústria da construção civil, esta impulsionada pelos programas habitacionais e pelos fortes investimentos via PAC.
Essas iniciativas deram certo durante os três mandatos, de Lula e Dilma Roussef , muito embora os avanços tivessem sido significativos, o combate a essas medidas, mesmo com aprovação internacional e repercussão positiva na própria ONU para muitos programas sociais brasileiros, principalmente o Bolsa Família, a reação internamente era muito forte por parte dos setores conservadores e da grande mídia tradicional. Agregue-se a tudo isso o aumento do salário mínimo, sempre acima da inflação, portanto com ganhos reais e a recomposição do valor em níveis comparáveis com o governo de João Goulart, embora estando ainda distante do que valia durante o período de Getúlio Vargas, quando foi criado.
No entanto, a crise econômica mundial não retrocedeu. Mas era previsível que ela não recuasse. A gravidade dessa crise só é menor do que a que acarretou a grande depressão, e se estendeu do final da década de 1920 até a década de 1930. Foi preciso a estupidez da guerra para salvar o capitalismo da grande depressão, apesar das políticas intervencionistas keynesianas aplicadas antes dela. Mas o fundamental foi a indústria da guerra e a reconstrução da parte do mundo destruída que recolocou a locomotiva capitalista de volta aos trilhos.
A atual crise não apresenta perspectiva de solução. A meu ver, nem a curto nem médio prazo. E em longo prazo penso que poderemos encontrar uma alternativa para essa estrutura falida, completamente dominada pelo poder das grandes corporações e conglomerados financeiros.
O erro do governo Dilma foi apostar alto em medidas que visaram desonerar folhas de pagamento, isentar de impostos sobre produtos industrializados setores considerados estratégicos para a manutenção do índice de emprego, reter o preço dos combustíveis em situação de alta no mercado internacional (além de suspender a cobrança da CIDE – Contribuições de Intervenções no Domínio Econômico), cobrada sobre a importação de petróleo e seus derivados, e baixar a bíceps os preços da energia elétrica em detrimento do reforço da rede de distribuição e da melhoria das infraestruturas do setor.
Tornou-se um erro porque não deram certo, a não ser por um curto tempo. Mas as intenções foram boas, e teriam outro efeito não fosse a persistência de uma crise econômica avassaladora, que tem feito com que a maioria dos países reduzam seu poder de compra, alterando substancialmente a balança comercial brasileira. Por esse tempo, as consequências da crise, e do menor impacto dela no Brasil, sempre vendemos mais do que compramos. Mas o vento virou. A capacidade de investimentos brasileiros alterou a balança comercial, e enquanto prosseguíamos comprando no mercado internacional, os países diminuíam seus gastos e aquisições, fazendo a balança comercial tornar-se deficitária.
Internamente, os efeitos da crise passou a se refletir na oscilação do dólar, consequência da política dos Estados Unidos, que, na medida em que os dados apontavam uma recuperação do emprego, o mercado apostava na alta de seus juros. Como efeito os especuladores buscavam garantir seus investimentos naquele que é visto como o mercado mais seguro, apesar dos abalos. A retirada de dólar, aliado com a retração nos investimentos estrangeiros, elevaram o valor da moeda, repercutindo nos preços internos. Sendo, contudo, celebrado pelos setores exportadores, principalmente pelos que lidam com commodities.
Ao mesmo tempo, passamos a conviver com a mais grave crise hídrica da história brasileira, porque passa a atingir outras regiões, e não mais somente o Nordeste. O Centro-Oeste, e principalmente, o Sudeste, onde se concentra a maior parte do parque industrial brasileiro, impunha restrições ao uso de água, ao mesmo tempo em que afetou a produção de alimentos básicos, como frutas, legumes e hortaliças. Naturalmente, para não fugir à regra, a grande mídia conservadora tirou a responsabilidade dos governos estaduais (e omitiu algumas verdades sobre suas incompetências, como no caso de São Paulo e Minas Gerais), e produziu reportagens sub-reptícias, jogando nas costas do governo federal todos os males dos pífios gerenciamentos hídricos, de responsabilidades de Estados e Municípios.
O golpe mortal, que levou à lona o governo, no entanto, veio de cima para baixo. O que já deveria ser esperado. As denúncias de esquemas de corrupção para  composição de caixas 2, cujos recursos  teriam sido destinados à financiamento de campanhas. Algo sempre presente na história da política brasileira, e atividade desenvolvida em qualquer grande estatal federal ou estadual, em benefício de todos os grandes partidos. Por um ano, completado no mês de março, todos os dias, em todos os noticiários, de manhã, tarde e noite, na grande imprensa escrita ou televisada, uma verdadeira ação de guerrilha, com fustigamentos implacáveis, numa perfeita sintonia entre investigação policial, ação do judiciário e vazamentos de informações seletivas para os meios de comunicação. No foco, a principal empresa brasileira e uma das maiores do mundo no ramo de exploração de petróleo, responsável pela descoberta e extração de uma das maiores reservas de petróleo descobertas em tempos recentes: a Petrobrás. A mesma que nos governos do presidente Fernando Henrique Cardoso, se tentou a privatização, a começar com a alteração de seu nome, para Petrobrax, retirando a referência ao Brasil.[3] Era o que se pretendia, mas fracassou. Esse objetivo, no entanto, não está esquecido.[4]
Evidente que a manutenção de um esquema que funcionava há muito tempo, desde antes do Governo Lula, fazendo-se, no mínimo, vistas grossas às ações de verdadeiros abutres que por décadas assaltaram os cofres da empresa, em mais de um bilhão de dólares, foi no mínimo um grande deslize, mas foi algo pior dentro de uma visão estratégica. A responsabilidade do governo federal, nesse caso, está em ter permitido a atuação livre de elementos corruptos, muito embora isso, necessariamente, não represente um atestado de cumplicidade. Mas decorrem das imposições de partidos da base aliada, que impõem em escolhas, exatamente aqueles cargos possíveis de serem geradores de propinas. Ora, isso é uma verdade irrefutável e antiga na estrutura do Estado brasileiro. E não somente aqui no Brasil. Essa é uma preocupação muito atual na União Européia, e pesquisas recentes indicam que cerca de 75% dos europeus acreditam que a corrupção é generalizada em seus países, e 56% consideram que isso tem se agravado nos últimos três anos (a pesquisa é de 2014)[5]
O que não poderia ser permitido, além do combate intrínseco à corrupção, com a autonomia dos órgãos policiais federais e Ministério Público, é que a empresa de maior importância estratégica fosse alvo de tamanho ataque e da consequente perda de credibilidade. Desde o surgimento do Pré-Sal, e da alteração do processo de exploração, para o sistema de partilha, era evidente que a Petrobrás seria alvo dos interesses corporativos e de governos estrangeiros, notadamente os EUA. O mínimo que o governo federal deveria ter feito era acompanhar de perto toda a lisura do funcionamento dessa importante estatal, a fim de impedir qualquer ataque que pudesse desmoralizá-la, de dentro e por fora. E, para isso, deveria colocar a ABIN (Agência Brasileira de Informação) a serviço de descobrir qualquer irregularidade e atos lesivos a esse importante patrimônio do povo brasileiro.
Ao contrário, o que se viu foi o envolvimento de pessoas ligadas a partidos da base do governo indicadas para cargos chaves, de relações diretas com as grandes empreiteiras, useiras e veseiras em práticas de corromper agentes públicos com o intuito de lucrarem mais do que os editais lhes oferecem. O governo não poderia ter perdido o controle do que acontecia ali. A Petrobrás sempre foi alvo de cobiça internacional e desejo de se desfazer dela dos grandes entreguistas, subservientes aos interesses estrangeiros. Primeiro o petróleo, depois a Petrobrás. Com o Pré-sal isso se intensificou, e era esperado que isso acontecesse, pois já existiam situações em outros países que nos deveriam servir de exemplos.
A “Operação Lava-Jato”, com todos os seus vícios e direcionamentos políticos, não resta dúvidas, desmontou um enorme esquema de corrupção de altas somas de recursos públicos, enriquecendo muitos desses agentes corruptos e desviando outras quantias para rechear caixas 2 de campanhas políticas.
Com isso, e sob fogo cruzado, numa situação que impunha uma grande defensiva ao governo, a presidenta Dilma inicia seu segundo mandato. Crise econômica mundial, crise fiscal do estado brasileiro, descontrole inflacionário, denúncias de corrupção e estagnação da economia decorrente de todas essas situações. Tudo isso, amplificado pela forma como a grande mídia conservadora explora essas situações, fomentando um enorme pessimismo na população e revertendo toda a auto-estima conseguida nos últimos anos, principalmente nos Governos Lula. O receio de perder o que já conquistara, e esquecendo que seus ganhos foram possível mediante as ações implementadas pelos governos Lula e também no Governo Dilma, fez com que uma grande parte da população caísse na armadilha montada desde há muitos anos pelos conservadores, devidamente representados pelo Sistema Globo (TV Globo, jornal O Globo, revista Época), os jornais Folha de São Paulo e Estado de São Paulo, e a pestilenta revista Veja.
Sim, a crise econômica que estourou em 2008, não passou de uma marolinha aqui no Brasil até 2010, quando o crescimento do PIB chegou a 7,5%, e em média nos governos Lula chegou a 4,06%.[6] Contudo, os últimos meses, e o que se aponta adiante, dão a indicação de que fomos atingidos por um furacão de proporções médias, transformado pela grande mídia em um tsunami.
Os ajustes fiscais podem significar uma correção nos rumos, e uma retomada dos investimentos? Quais os verdadeiros objetivos por trás das ações dos setores conservadores? E como o governo Dilma enfrentará um Congresso dominado por dois personagens que desejam verem-se livres das páginas policiais, já que são também investigados na Operação Lava Jato, e apostam em uma agenda conservadora para ficarem de bem com a grande mídia e os partidos de oposição?
Analisaremos essas questões, a radicalidade do discurso fascista saído do armário, ou melhor, das catacumbas e fossos de torturas, e as margens de manobras que possui o governo para não se tornar alvo da ira dos movimentos sociais e sindicais, no próximo artigo dessa série.
Leiam e debatam. O momento é de discussão, resgate da história e de engajamento na luta para garantir que direitos trabalhistas, duramente conquistadas pelos trabalhadores, não sejam retiradas em benefício das hienas conservadoras que dominam a política. E dos setores empresariais sempre em busca de maiores lucros à custa das desigualdades sociais.




[4]Venda da Petrobrás estará madura em 5 anos, diz ANP -  http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi20059909.htm
[5] A luta da União Européia contra a fraude e corrupção -  http://europa.eu/pol/pdf/flipbook/pt/fight_fraud_pt.pdf